30 de abril de 2011

CALENDÁRIO DAS AULAS DE MARIOLOGIA - 2011

02/05/2011 - Maria nos Evangelhos de Marcos e Mateus

09/05/2011 - Maria no Evangelho de Lucas

16/05/2011 - NOVENA - Não haverá encontro

23/05/2011 - NOVENA - Não haverá encontro

30/05/2011 - Maria no Evangelho de João e no Apocalipse


06/06/2011 - Maria: Mãe de Deus e sempre Virgem

13/06/2011 - Maria: Imaculada e Assunta aos Céus

20/06/2011 - Teologia de Maria na Lumen Gentium - Parte I

27/06/2011 - Teologia de Maria na Lumen Gentium - Parte II

10 de abril de 2011

PNEUMATOLOGIA - GRAÇA, DONS, CARISMAS (AULA 7)


GRAÇA

Experiência cristã mais originária:


Dois mundos que se encontram e dialogam: Deus e o Homem


EVOLUÇÃO TEOLÓGICA DO CONCEITO

Antigo Testamento – Graça como história;

Novo Testamento – Bondade e simpatia de Deus que se faz gente, abrindo esperança;

Teologia grega – Glória de Deus que se irradia e diviniza o homem;

Teologia latina – Graça pensada como libertação do pecado;

Teologia pré-escolástica – Graça como auxílio, socorro para viver as virtudes;

Teologia escolástica – Aspecto metafísico, graça como princípio gerador;

Teologia do século XIX – Ênfase trinitária. Deus mesmo se dá e mora no homem;

Teologia moderna – Ênfase no diálogo e abertura do homem para o infinito.



Homem criado à imagem e semelhança de Deus – é graça, consequência do dom de Cristo que nos é dado pelo Pai, no Espírito.

Para São Paulo graça é:
- O próprio Jesus
- Situação do homem incorporado no Cristo
- Gratuidade do amor divino
- Potência de Deus que nos fortalece

Âmbito da graça é o mundo todo e todo mundo – vontade salvífica universal.

Predestinados para a salvação:
"Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele, ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele, no amor.Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácido da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou, no Amado. É por ele que temos a redenção e remissão dos pecados, segundo a riqueza de sua graça que ele derramou profusamente sobre nós." (Ef 1, 3-8)


A graça derramada sobre homens frágeis e pecadores, por pura e livre iniciativa de Deus.
Pelágio e Agostinho.

Só Jesus pode salvar, sem mérito algum de nossa parte.

Salvação não é só remissão de pecados, mas é justiça que vem de Deus e que se torna inerente a nós, nos salva “por dentro”.

Pela graça nos tornamos filhos, no Filho.
"Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abba, Pai! Já não és mais escravo, mas filho. E se és filho és também herdeiro, graças a Deus." (Gl 4, 4-6)

O Espírito habita em nós por pura graça, e esta presença é o fundamento de nossa divinização.
Plenitude do homem como conformação ao Cristo, em sua relação original com o Pai.

É o Espírito que torna possível a encarnação, que o unge no batismo, que o faz pregar em sua potência, que o ressuscita dos mortos.

Jesus ressuscitado dá seu Espírito, que realiza em nós o mesmo que realizou em Jesus.

Graça é o horizonte da salvação. O homem na graça é o homem salvo. A graça é o dom do próprio Deus. Salvação é o homem que só é, se está em Deus.

Nossa salvação se faz história concreta.


DONS E CARISMAS

Os dons são disposições que tornam o homem dócil para seguir os impulsos do Espírito.

Carismas são dons do Espírito concedidos a cada um para o bem dos homens, para as necessidades do mundo e para a edificação da Igreja.
PNEUMATOLOGIA - VIDA NO ESPÍRITO E SEGUNDO O ESPÍRITO (AULA 5)


O ESPÍRITO REALIZA, PERSONALIZA E INTERIORIZA A VIDA "EM CRISTO"

Ser cristão é fazer de Cristo o princípio da própria vida, levar a vida por Cristo.

São Paulo usa as expressões “Cristo em nós”, “nós em Cristo”. Ele exorta as comunidades “em Cristo” ou “no Senhor”

O cristão vive nova vida, fundamentada na vitória do Cristo sobre a morte, que revelou o poder do Espírito Santo.

Na ressurreição de Jesus, o Espírito revela-se como aquele que dá a vida: “Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos, vivificará os vossos corpos mortais, por meio do Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11)

Em nome da ressurreição, anunciamos a vida que se manifestou para além das fronteiras da morte, a vida mais forte que a morte.

Aquele que dá esta vida é o Espírito santo vivificante, presente e atuante em nós.

O mesmo Espírito que fez Maria fecunda de Cristo - “O Espírito Santo virá sobre ti...” (Lc 1, 35) e que tornou e faz a Igreja fecunda - “Encheram-se todos do Espírito Santo...” (At 2, 4), é o mesmo que nos torna fecundos e nos dá a semente da identidade cristã, até a consumação final.

São João nos fala sobre a “semente de Deus”, da qual nascemos de Deus. Esta semente é o Espírito: “Ninguém que seja filho de Deus comete pecado, pois conserva sua semente, porque foi gerado por Deus” (1 Jo 3, 9)

Esta semente é o Espírito e é também o Verbo que foi recebido pela fé, o que mostra como o Cristo e o Espírito estão unidos em nós.

Paulo diz tanto “no Espírito” quanto “em Cristo”

Claro que Paulo também diz do Cristo coisas que não diz do Espírito e vice-versa. Por exemplo Paulo não diz que somos templos do Cristo e nem que somos membros do Espírito.

É o Espírito que opera esta identificação mística entre nós e o Cristo.

Assim, Deus Pai, pelo seu Espírito, faz com que Cristo habite em nossa profundeza, onde se forma a orientação de nossa vida: “Dobro os joelhos diante do Pai para que vos conceda: fortalecer-vos internamente com o Espírito, que pela fé Cristo habite vosso coração, que estejais enraizados e alicerçados no amor” (Ef 3, 14-17)

O Espírito é ativo na fé, na palavra - “...isso que agora têm anunciado os que trazem a boa notícia, inspirados pelo Espírito Santo” (1 Pd 1,12), na escuta - “o Senhor lhe abriu o coração para que prestasse atenção ao discurso de Paulo” (At 16, 14), no testemunho de Jesus - “quando vier o Paráclito, ele dará testemunho de mim e vós também dareis” (Jo 15, 26-27)

A semente de que fala João é o Verbo e o Espírito, que unge o cristão, e lhe comunica a mesma unção profética e messiânica recebida por Jesus. E esta unção é ativa em toda a vida de fé do batizado. O Espírito aprofunda a fé, pois ele é o Espírito da verdade.

O Espírito revela o Filho, assim como o Filho revela o Pai. O Paráclito é sempre relativo a Cristo - “Eu pedirei ao Pai que vos envie outro Consolador, que esteja convosco sempre” (Jo 14, 16). O Espírito, o único que conhece o que está em Deus, é o único que pode nos fazer conhecer a verdade do Cristo profundamente.

Presente em Cristo desde o princípio, é ele sua testemunha privilegiada e insubstituível, “pois o Espírito explora tudo, inclusive as profundidades de Deus. Qual homem conhece o homem senão a consciência do homem? Ninguém conhece o próprio Deus a não ser o Espírito de Deus.” (1 Cor 2, 10b-11)


A VIDA EM CRISTO É UMA VIDA FILIAL

Cristo é o centro e o cume, mas não é o termo. Ele está todo voltado em direção ao Pai: o Espírito nos leva ao Filho, que nos leva ao Pai”: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4, 34); “Eu sempre faço o que lhe agrada” (Jo 8, 29); “Não procuro minha vontade, mas a vontade do que me enviou” (Jo 5, 30)

Durante toda a vida de Jesus, o Pai não cessou de dizer: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” e Jesus não cansou de dizer: “Tu és o meu Pai, vim para fazer a tua vontade”.

Nossa vida de filhos é nossa busca de conformidade à vontade de Deus, sem negar nossa inteligência e dignidade.

Juntamo-nos a Jesus também em sua oração, principalmente a oração ao “Pai nosso que está nos céus”.

“Nós todos, refletindo com o rosto descoberto da glória do Senhor, vamos nos transformando em sua imagem, com brilho crescente, sob a ação do Espírito do Senhor” (2 Cor 3, 18)


JÁ E AINDA NÃO

Toda nossa vida está nesta tensão entre o já e o ainda não.

“Possuindo as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando ser verdadeiramente tratados como filhos” (Ef 8, 23)

“Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos adotivos, por Jesus Cristo. Fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo, que é penhor da nossa herança” (Ef 1, 4-6.13-14)

“Fostes marcados com o sinete do Espírito Santo, adiantamento de nossa herança, até a libertação final em que dela tomaremos posse, para o louvor da sua glória” (2 Cor 1, 21-22)

O Espírito, com fez com o corpo de Cristo, provocará nossa ressurreição, e seremos plenamente filhos de Deus.

É a ressurreição e glória de Jesus que também nos asseguram, em Cristo, a ressurreição e a glória: “esse Espírito é que atesta ao nosso Espírito que somos filhos de Deus. Filhos, portanto herdeiros de Deus, co-herdeiros de Cristo, visto que, participando de seus sofrimentos, teremos parte na sua glória” (Rom 8, 16)

Somos amados pelo mesmo amor com que o Pai ama o Filho.

Formamos com o Filho um único ser filial. Ele é Filho único, mas também o filho primogênito de uma multidão de irmãos. Em Jesus, e graças a Ele, o Pai também diz a cada um de nós: “Tu és meu filho”.


O ESPÍRITO E NOSSA ORAÇÃO

O Espírito assiste nossa leitura das Escrituras, nossa meditação e nossa oração, pois “quanto mais o Pai do céu dará o Espírito santo aos que lho pedirem” (Lc 11, 13) e “o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza, pois não sabemos rezar como convém” (Rm 8, 26)

O pressuposto essencial é que amemos verdadeiramente a Deus, que Ele seja uma Pessoa viva para nós, o pensamento mais importante de nossa vida, em todas as situações práticas.


RESUMINDO...

O Espírito enxerta em nós a “raiz da imortalidade”, da qual desponta a vida nova, do homem em Deus, que como fruto da divina autocomunicação só pode desenvolver-se e consolidar-se sob a ação do Espírito Santo.

Sob a influência do Espírito Santo, o homem interior se fortalece. Graças à comunicação divina, o espírito humano, que “conhece a consciência do homem”, encontra-se com o “Espírito que conhece as profundezas de Deus”.

Nesse Espírito, Deus abre-se totalmente ao homem

Sob o mesmo o Espírito o homem abre-se diante de Deus e entra numa vida nova, é introduzido na realidade da própria vida divina e torna-se habitação de Deus. O Pai, o Filho e o Espírito vêm a ele e fazem nele sua morada.

A íntima relação com Deus faz com que o homem também se compreenda e à humanidade de maneira nova, e realize, à luz de Cristo, protótipo da relação com Deus, aquela imagem e semelhança de Deus, que o homem é desde sempre e para sempre.

Tudo isso só é possível porque o mesmo Espírito existe em Cristo nossa cabeça, e em nós, seu corpo.

Por sermos filhos no Filho, primogênito de uma multidão de irmãos, corresponde o fato de que é pelo mesmo Espírito, identicamente o mesmo, que nós o somos.

15 de novembro de 2010

PNEUMATOLOGIA - O ESPÍRITO SANTO ANIMA A IGREJA (AULA 3)


A IGREJA É FEITA PELO ESPÍRITO

“Consumada a obra que o Pai tinha confiado ao Filho sobre a terra”, no dia de Pentecostes foi enviado o Espírito Santo para santificar continuamente a Igreja e, assim, os que viessem a acreditar, tivessem, mediante Cristo, acesso ao Pai, num só Espírito”. (LG 4)

Assim, dá-se o nascimento da Igreja, manifestação do que já ocorrera no Cenáculo, quando o Cristo sopra sobre os apóstolos e diz: “Recebei o Espírito Santo...”

O que ocorreu “estando as portas fechadas”, agora manifesta-se publicamente diante dos homens.

É claro que o Espírito já agia no mundo, mas em Pentecostes ele desceu sobre os discípulos para permanecer com eles eternamente (Jo 14, 16) e a Igreja nasce e dá-se o início da difusão do Evangelho através da pregação.

O “tempo da Igreja” começa com a vinda do Espírito Santo, no momento em que as promessas e os anúncios, sobre o Espírito consolador, o Espírito da verdade, passaram a verificar-se sobre sobre os apóstolos, com toda a evidência. O Espírito assumiu a orientação invisível daqueles homens fracos.

“O Espírito Santo habita na Igreja e no coração dos fiéis como num templo (cf 1Cor 3,16); neles ora e dá testemunho da sua adoção filial (cf Gl 4,6).Ele introduz a Igreja no conhecimento de toda a verdade (cf Jo 16,13), unifica-a na comunhão e no ministério, edifica-a, dirige-a e enriquece-a com seus frutos” (cf Ef 4, 11-12)

Os discípulos formam uma comunidade guiada pelo Espírito Santo, portadora de uma mensagem de salvação, solidária com todos os homens e com sua história, pois o Espírito de Deus dirige o curso dos tempos e renova a face da terra.

É significativo que Jesus, no seu discurso de adeus, anuncie não apenas sua partida, mas também a sua nova vinda: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para junto de vós” (Jo 14,18), e no momento da ascensão diga: “Eis que estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 18, 20)

Esta nova vinda dá-se no âmbito do envio do Espírito Santo, realiza-se por obra do Espírito, que faz com que Cristo, que partiu, venha agora e sempre, de maneira sempre nova, na realidade sacramental da Igreja.

Nossa redenção desenvolve-se na história no ritmo da missão do Filho, que veio ao mundo, nascendo da Virgem por obra do Espírito Santo e também no ritmo da missão do Espírito, que veio e vem continuamente a nós, no mistério da Igreja.

A Igreja é realidade terrestre, destinada à História, e obra de Deus, “mistério” que só a fé conhece.

A Igreja é sinal e meio da intervenção de Deus na nossa história. É realização da promessa de Deus concretizando-se na Igreja e através da Igreja

A Igreja histórica e visível tem Jesus como seu “fundador” (mas sempre ativo e vivo) e o Espírito como aquele que lhe dá vida e a faz crescer, enquanto ela é o Corpo de Cristo.

Ela é fruto das duas missões divinas: do Filho e do Espírito.

Há uma total unidade de ação do Espírito Santo e do Cristo, pois “o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito está a liberdade” 2Cor 3,17.

Se em Deus eles são distintos, eles são de tal modo unidos que os experimentamos juntos. Quando o Pai envia o Verbo, envia sempre o seu Espírito.


O ESPÍRITO É PRINCÍPIO DE UNIDADE

O Espírito foi dado à Igreja e prometido aos apóstolos, mas em vista do novo povo:”...O Espírito da Verdade, que vem do Pai, dará testemunho de mim, e vós também dareis testemunho” (Jo 15, 26b-27a); “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (Jo 14, 26)

Em Pentecostes são significativas duas expressões: “reunidos juntos, no mesmo lugar” e “unânimes”.

A comunidade recebe o Espírito, na unidade, o que já supõe uma primeira unidade, de consentimento, de estar juntos.

Só se recebe o Espírito quando se está junto. Porque há um só Espírito de Cristo, é que há um só corpo, que é o Corpo de Cristo: “Fomos todos batizados em um só Espírito para formarmos um só corpo” (1Cor 12,13)

A Igreja é uma comunhão, uma fraternidade, em que se unem um princípio pessoal e um princípio de unidade

É necessário nada menos que o Espírito de Deus para conduzir à unidade tantas realidades diferentes e Ele promove esta unidade não através da pressão, e sim através da delicada via da comunhão.

Somente Ele consegue, respeitando a pluralidade, promover o plano de Deus, que se expressa na comunhão, na unipluralidade.

O Espírito faz com que todos sejam um, em que todos vivem e esse comportam como membros conscientes e livres de um todo orgânico.

O mesmo Espírito, que santificou a humanidade de Jesus, faz que exista na história um só Corpo, que é o Corpo de Cristo, “na diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Cor 12, 12-13)

A unidade da Igreja tem seu fundamento em Deus: “Há um só Corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo, há um só Deus e Pai de todos...” (Ef 4, 4-6)

A Igreja é a realidade una e eficaz visada pelo plano de unidade de Deus. É a realidade do “Corpo místico” de Cristo.

O Senhor Jesus e o Espírito são, juntos, os autores da Igreja, em sua unidade. Mas Cristo é a Cabeça deste corpo, homogêneo aos seus membros. Por isso, a Igreja é o Corpo de Cristo, e não do Espírito Santo.


O ESPÍRITO É PRINCÍPIO DE CATOLICIDADE

A unidade é aquela de “muitas pessoas segundo o todo”. A unidade é de extensão universal (católica).

Jesus é o “homem universal” e a Igreja faz com que Ele chegue para os homens de todos os lugares e todos os tempos.

Ela faz esta continuidade com aquilo que vem dele para ela como instituição – palavras, sacramentos, missão – e com a comunicação de seu Espírito, como dom escatológico, já presente e ativo dentro dela. Ele a catoliciza no espaço do vasto mundo e no tempo da história.

O Espírito que residia em Jesus e operava através dele, após a experiência pascal deu início ao envio missionário: “Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28, 19-20).

Esta missão provocou a saída do domínio judeu e a ida ao encontro dos povos, das línguas e culturas.

Pentecostes foi a apresentação da Igreja ao mundo como vocação para a universalidade, com cada qual entendendo e exprimindo em sua língua as maravilhas de Deus. (At 2, 6-11)

Pela missão-dom do Espírito, a Igreja nasceu universal ao nascer múltipla, católica porque particular.

A Igreja inverteu Babel, não por uma uniformidade pré-babélica, mas anunciando uma inculturação do próprio Evangelho e da própria fé em solos culturais ou espaços humanos diferentes.

A Igreja coloca sua fé na Palavra de Deus, da qual as Escrituras inspiradas dão testemunho. A vida da Igreja é, ao longo dos séculos, uma meditação das Escrituras, que devem ser lidas com o mesmo espírito e pelo mesmo Espírito sob influência do qual ela foi escrita.

Só há leitura adequada da Escritura sob moção do Espírito.

Se a Escritura é a comunicação do mistério de Cristo, então se entende que a ela tenha sido assimilada a Tradição.

O Espírito atualiza a Palavra a cada geração e em cada ambiente. Ele dá assistência à comunidade para perceber o seu sentido.

O Espírito atua na Igreja hoje, e guia sua vida hoje tanto quanto no passado. Ele ainda fala hoje, nos acontecimentos e na vida dos homens.

A Igreja descobre nos “sinais dos tempos” o campo de sua missão, sob a inspiração do Evangelho e sob a ação e graça do Espírito.

O Espírito torna presente a Páscoa de Cristo, atualiza sua Revelação, impulsiona o Evangelho para frente, pois se o Cristo nasceu apenas uma vez, falou, morreu e ressuscitou apenas uma vez, essa “uma vez” deve ser acolhida e produzir frutos numa humanidade que se multiplica e se diversifica de maneira indefinida através das culturas e dos espaços humanos.

É obra do Espírito unir o dado e o inesperado, o adquirido uma vez por todas e o perpetuamente inédito e novo.

O Verbo é a forma e o Espírito, o sopro. Jesus anunciou um Evangelho, instituiu uma Eucaristia. O Espírito os atualiza no inédito da história, ele une o Alfa e o Ômega.

Deus nos disse tudo e nos concedeu tudo em Jesus Cristo, mas há algo de novo, que se passa na história.

O Espírito é o Espírito de Jesus. Ele não faz outra obra diferente da de Jesus. Não há uma obra do Paráclito que não seria a do Cristo. A catolicidade é a catolicidade do Cristo. A solidez da pneumatologia está na sua referência cristológica.


O ESPÍRITO MANTÉM A IGREJA APOSTÓLICA

Apostólica significa relativa aos apóstolos, conforme os apóstolos, é uma conformidade com as origens.

É também uma referência escatológica. Ela preenche o entremeio do Alfa e do Ômega, garantindo a continuidade de um e de outro, a identidade substancial do princípio e do fim.

A Igreja junta o Alfa da proposta de Deus ao seu Ômega, de modo que proposta e dom continuem idênticos no curso da história. O Espírito garante esta ligação.

Esta fidelidade se manifesta nos elementos essenciais da instituição eclesial dados por Jesus: sua palavra, os sacramentos, o ministério dos doze, etc.

A apostolicidade é a identidade da missão dada aos apóstolos através dos séculos e até o fim.

Para a continuidade da obra de Jesus, há dois elementos essenciais : os apóstolos e o Paráclito. Os dois estão juntos.

“Recebereis uma força, a força do Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (At 1, 8)

“ E vós sereis testemunhas disso. Da minha parte, eu vou enviar-vos o que meu Pai prometeu” (Lc 24, 48)

Os Atos dos Apóstolos e as cartas nos mostram na prática essa associação entre o Espírito e os enviados de Cristo.

Os enviados pregam “sob a ação do Espírito” (1Pd 1,12), sua palavra é poderosa “pela ação do Espírito Santo” (1Tm 1,15), foram confirmados por ele, na verdade (Jo 16, 8-13). A Igreja nasce e cresce pela pregação e graças ao apoio do Espírito (At 6,7).

O ministério apostólico é atribuído ao Espírito Santo, é um “ministério do Espírito” (2Cor 3, 4-18)

Ao longo dos séculos, a Igreja tem a consciência de ser assistida, inspirada pelo Espírito Santo, que lhe foi prometido e dado para guardar uma infalível fidelidade à fé recebida dos apóstolos, de maneira especial para o magistério do bispo de Roma.

Nós cremos na Igreja apostólica, pois o Espírito a apostoliza. É sobre ela, reunida ao redor dos apóstolos, que o Espírito desceu em Pentecostes. Quando a primeira comunidade se expandiu, foi através do acesso de novos membros que se juntaram ao núcleo primitivo.

Assim entendemos a “sucessão apostólica”, no sentido amplo da transmissão fiel da fé, em total conexão com a comunidade primitiva. Por isso a ordenação dos bispos é realizada por vários bispos, e no meio do povo, que dá testemunho que seu eleito está dentro da fé católica e apostólica.

O Espírito assiste a Igreja para que ela, intimada a confessar, afirmar ou definir sua fé, ela o faça de modo garantido, infalível.

Desde a descida do Espírito sobre os primeiros cristãos, eles “eram assíduos à fração do pão e à oração” unidos ao ensinamento dos apóstolos

Reconheciam que o Senhor ressuscitado voltava ao meio deles na comunidade eucarística da Igreja, e por meio dela.

A Eucaristia é a expressão maior da partida de Cristo, e também sua vinda, sua presença salvífica no Sacrifício e na Comunhão.

Mediante a Eucaristia, e por obra do Espírito Santo, como esclarece a “epiclese” antes da consagração, realiza-se o fortalecimento do homem interior, as pessoas aprendem a descobrir o sentido divino da vida.

A Igreja desenvolve-se sobre o fundamento da “partida” do Cristo e vive sobre sua “vinda” sempre novo, por obra do Espírito.


O ESPÍRITO É PRINCÍPIO DE SANTIDADE

É motivo de irritação em muitos proclamar a Igreja como “Santa”.

O Concílio Vaticano II teve a coragem de falar da Igreja santa e pecadora: os séculos de história da Igreja estão cheios de todo tipo de falhas humanas.

Sua santidade não se refere à santidade das pessoas, mas é uma alusão ao dom divino que lhe concede santidade em meio à imperfeição humana.

Sua santidade consiste no poder de santificação que Deus exerce nela, apesar da pecaminosidade humana.

A Nova Aliança se baseia na graça concedida por Deus, que não recua diante da infidelidade humana. Ela é expressão do amor que não se deixa vencer, que quer bem ao homem e o aceita justamente como ser pecaminoso, dirigindo-se a ele para santificá-lo.

A Igreja é continuamente santificada pelo Espírito, tornando a santidade Dele presente.

É a santidade do Cristo que brilha em meio ao pecado da Igreja.

Esse encadeamento fidelidade de Deus/infidelidade do homem é a estrutura dramática da graça, que se torna visível por mãos indignas.

Em nosso sonho de perfeição, o pecado não está misturado com a santidade.

Os críticos de Jesus já o julgavam por vê-lo misturado com os pecadores, os doentes, e pediam que ele arrancasse logo a erva daninha.

A santidade imperfeita da Igreja revela a santidade de Deus, que é um amor que não se mantém distante, mas que se mistura à sujeira do mundo para superá-la.

Essa santidade imperfeita da Igreja é para nós consolo infinito. Não desesperamos diante de uma santidade imaculada e que só poderia se manifestar nos julgando e condenando.

A Igreja nos santifica, nos sustenta, nos suporta.

A Igreja vive dentro de nós, ela vive da luta da imperfeição pela perfeição, luta que vive do dom de Deus, animada pelo espírito de tolerância e do verdadeiro amor.

A Igreja vive em processo de contínua conversão na busca da construção do Reino de Deus na história e no tempo.

24 de outubro de 2010

PNEUMATOLOGIA - O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO (AULA 1)


INTRODUÇÃO
“Crer no Espírito Santo é professar que o Espírito Santo é uma das Pessoas da Santíssima Trindade, consubstancial ao Pai e ao Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado” (CEC 685)

“O Espírito Santo está em ação com o Pai e o Filho do início até a consumação do Projeto de nossa salvação. Mas é nos “últimos tempos”, inaugurados pela Encarnação redentora do Filho, que ele é revelado e dado, reconhecido e acolhido como Pessoa.” (CEC 686)

“O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai, mas obscuramente o Filho. O Novo manifestou o Filho, fez entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito tem direito de cidadania entre nós e nos concede uma visão mais clara de si mesmo” (S Gregório Nazianzeno)

A RUAH

Assim, no Antigo Testamento, temos “pistas” sobre o Espírito Santo: expressão, aliás, que só aparece três vezes.

A palavra hebraica ruah, que aparece 378 vezes, traduzida para o grego como pneuma, que significa sopro, respiração, ar, vento, é traduzida em português como espírito.

Ruah aparece basicamente com três acepções:
- Acepção básica: vento, respiração.
- Acepção antropológica: força vital, princípio de vida, sede do conhecimento, dos sentimentos, da vontade.
- Acepção teológica: força de vida de Deus, pela qual ele age e faz agir. Força profética. Espírito de Deus.

É a utilização num determinado contexto, com uma certa intenção, que determina o valor e o sentido do termo.

O sopro-espírito recebe várias qualificações conforme os efeitos dos quais ele é o princípio: entendimento, sabedoria, etc.

A qualificação que mais nos interessa é o “sopro de Deus”, que expressa o poder que produz efeitos no mundo, no homem, naqueles que recebem o dons de líder, de profeta, de homem religioso, etc.

O que sempre uniu Israel foi a certeza de que o próprio Deus o livrou da servidão no Egito e o conduziu à terra prometida. Israel mantém a certeza de que Javé continuaria a livrá-lo de toda a aflição e o manteria vivo.

OS JUÍZES

Em situações de perigo extremo, Javé, como outrora no Egito, “ouve o clamor de seu povo” e sua ruah afasta a aflição ao se apoderar de indivíduos e capacitar o povo a resistir ao inimigo.

Inicialmente, surgem os Juízes, líderes carismáticos e guerreiros.

Assim:
Otoniel: “o sopro do Senhor esteve sobre ele” (Jz 3, 10)
Gedeão: “o sopro do Senhor revestiu Gedeão” (Jz 6, 34)
Sansão: “o sopro do Senhor penetrou nele” (Jz 14, 19)

É importante frisar que o arrebatamento nesses líderes carismáticos é fenômeno episódico, único, passageiro, tendo um objetivo específico em uma dada situação.

O PROFETISMO EXTÁTICO

A ruah também surge, nos primórdios de Israel, no contexto do “profetismo extático”.

Aqui a ruah não age apenas sobre um indivíduo, mas sobre um grupo inteiro de profetas, que entram em êxtase passageiro, nunca relacionado às palavras e ações salvadoras de Javé.

O profetismo extático é fenômeno episódico e passageiro.

O espírito vindo de Deus, normalmente, comunica um discernimento e uma sabedoria dentro da normalidade, sem fenômenos exteriores.

A MONARQUIA

Saul é o último dos Juízes e o primeiro dos Reis. A ele ainda se aplica a observação de que sua unção é passageira. Após sua unção por Samuel, “O Espírito de Deus veio sobre Saul, e ele entrou em êxtase profético no meio deles” (1 Sm 10, 10). Depois, diz-se que a ruah de Javé “se retirou dele” (1 Sm 16, 14)

Com Davi algo de diferente e definitivo começou. Quando Samuel o unge,“o espírito do Senhor desceu sobre Davi daquele dia em diante” (1 Sm 16, 13).

Agora não é apenas um arrebatamento: a concessão do Espírito associa-se à pregação e instrução operadas pelo Espírito.

Segundo 2Sm 23,1s, as últimas palavras de Davi foram: “o Espírito do Senhor falou por meu intermédio, sua palavra estava em minha língua”.

O Senhor agora não intervém só em situações de perigo, mas seu espírito torna-se dádiva permanente para o ungido, o eleito.

A coalizão de Espírito de Deus e poder político torna-se frágil, mesmo em Davi, o que propicia que a fé na monarquia de Javé passe para o Messias, como rei salvífico pelo qual se anseia: “Sobre ele repousará o espírito de Javé, espírito de sabedoria... Ele não julgará pelas aparências... A justiça será o seu cinto...” (Is 11 2.3.5)

OS PROFETAS

Nós cremos que o Espírito Santo “falou pelos profetas”.

A palavra profética é atribuída a um “sopro” de Javé sobretudo durante no tempo do exílio e no pós-exílio.

Três autores nos interessam: Isaías, que utiliza o termo 50 vezes; Ezequiel, que o utiliza 46 vezes e Joel.

OS PROFETAS - ISAÍAS

Isaías expressa que tudo o que existe de digno de vida vem do sopro de Deus. É Deus que comunica a vida.

É no meio dos perigos que Isaías anuncia: “Um ramo sairá da cepa de Jessé. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de discernimento, Espírito de conselho e de valentia, espírito de conhecimento e de temor do Senhor” (Is 11, 1-2)

É claramente uma profecia messiânica também o primeiro Cântico do Servo: “pus sobre ele o meu Espírito” (Is 42,1)

É através de seu sopro que o Senhor encaminha o seu desígnio, que ele continua libertando o povo

O Messias tem traços de profeta, segundo o Trito-Isaías: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim porque o Senhor me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres...” (Is 61, 1 a)

OS PROFETAS - EZEQUIEL

Ezequiel, um profeta do exílio, constata que o culto e o povo estão mortos. Mas Iahweh está mais do que nunca presente e seu Espírito reanimará as ossadas e seu sopro fará deles pessoas vivas, comunicando-se dentro de seus corações.

“Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo; tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Infundirei em vós o meu sopro (espírito)” (Ez 36, 25-27)

“Não lhes ocultarei mais minha face, visto que terei derramado meu espírito sobre a casa de Israel” (Ez 39, 29)

“Filho do homem, estas ossadas podem reviver? Eu disse: “Senhor Deus, tu o sabes!” Ele me disse: “Pronuncia um oráculo sobre essas ossadas, dize-lhes: Ossadas ressequidas, escutai a palavra do Senhor. Assim fala o Senhor Deus a essas ossadas: Farei vir sobre vós um sopro para que vivais” Pronunciei o oráculo como havia recebido a ordem, o sopro entrou nelas e elas reviveram, ficaram de pé” (Ez 37, 3-5.10)

As provações do exílio levaram a uma visão do sopro de Deus mais interiorizada, purificando os corações, penetrando dentro, santificando o povo de Deus. É um novo começo, um novo êxodo, uma aliança renovada.

Deus será, através de seu sopro, princípio de vida santa para Israel.

OS PROFETAS - JOEL

Joel(350-400 a.C.), num anúncio de eventos escatológicos, estende o dom do Espírito de Deus a todos os povos: “Derramarei meu Espírito sobre toda carne. Mesmo sobre os servos e as servas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 1-2)

ESCRITOS SAPIENCIAIS

A partir do séc IV a.C surge uma literatura do judaísmo helenizado: os escritos sapienciais

Um de seus livros – Sabedoria – escrito por volta do ano 50 a.C. faz uma reflexão sobre a Sabedoria, quase identificando as duas realidades entre si. Ela é um espírito (Sb 1,6), possui um espírito (7, 22b), age sob a forma de espírito ( 7,7b).

A Sabedoria procede de Deus, e ela é como sua ação em benefício das pessoas, para as conduzir corretamente de acordo com a vontade de Deus.

Portanto, a ação da Sabedoria é parecida com a do Espírito, pois tem o caráter de uma força interior de transformação.

CONCLUSÕES

No Antigo Testamento, o Sopro-Espírito de Deus é ação de Deus. É aquilo pelo qual Deus se manifesta agindo para conceder a animação, a vida.

É aquilo pelo qual Deus conduz seu povo, suscitando para ele heróis, guerreiros poderosos, reis, líderes, profetas, sábios.

O Messias anunciado acumulará tudo isto.

O criador age através de sua ruah: “se envias teu Espírito, todos eles são criados e renovas a face da terra” (Sl 104, 29)

O homem vive da ruah de Deus: “Então Iahweh modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7)

A ruah de Deus recria o homem e estabele comunhão com Ele: “Porei meu espírito em vós e farei com que sigais minhas leis. Então habitareis na terra que dei a vossos pais. Vós sereis meu povo e eu serei vosso Deus” (Ez 36, 24-28)

PNEUMATOLOGIA - PROGRAMA

27 de setembro de 2010

CRISTOLOGIA - AUTOAFIRMAÇÕES E TÍTULOS DE JESUS (AULA 15)


INTRODUÇÃO
Quem é Jesus de Nazaré?

Esta é uma pergunta que aparece sempre na vida dos seguidores daquele Mestre de Nazaré.

Fundamentados na experiência pascal e em Pentecostes é que a fé em Jesus e o aprofundamento na compreensão de sua identidade se desenvolveram.

As primeiras comunidades apresentaram vários caminhos para a aproximação da rica e complexa realidade de Jesus usando elementos tomados do Antigo Testamento, das tradições judaicas e do helenismo.

Trataremos, então, alguns desses títulos
- O Cristo-Messias
- O Servo de Iahweh
- O Homem Novo
- O Senhor
- O Filho do Homem
- O Filho


JESUS É O CRISTO-MESSIAS

Cristo-Messias significa “Ungido”.

Eram ungidos o rei, o sacerdote, enfim, pessoas com alguma missão ou tarefa especial em relação ao povo de Israel.

No Antigo Testamento a ação libertadora e salvífica de Iahweh está associada à vinda de um Messias-rei, da casa de Davi.

No tempo de Jesus era predominante a interpretação político-nacionalista da figura do Messias. Daí a reserva de Jesus em relação à utilização desse título.

Ele não se afirma Messias, mas não rejeita o título, sempre corrigindo seu significado, principalmente quando lhe é dado por doentes e pelos discípulos.

Depois de sua morte-ressurreição ficou claro o messianismo de serviço de Jesus.

O título mostra a continuidade entre a expectativa de Israel e a Igreja
Ele é o esperado, o salvador de toda a humanidade, é aquele que supera as expectativas do coração humano.


JESUS É O SERVO DE IAHWEH

Ele viveu toda a sua vida em entrega filial ao Pai e em amor-serviço e solidariedade aos irmãos.

Sua entrega, em consonância com o Servo dos cantos de Isaías, foi feita:
“por amor a nós, em proveito nosso, em nosso lugar”.


JESUS É O HOMEM NOVO

Sonhamos com um ser humano melhor que o atual. Sentimos que existir o ser humano real, histórico e o ser humano ideal, desejado, sonhado.

Também os gregos tinham esta ideia: o homem originário, proveniente do divino, que era modelo para a criação do homem real.

Também no judaísmo, influenciado pelo helenismo, interpretou-se a criação do homem em Gênesis com a existência do Adão perfeito, criado à imagem de Deus e o Adão terrestre, imperfeito, feito de argila.

Este contexto cultural será retomado no Novo Testamento.

Paulo afirma que o verdadeiro homem, o homem que vem de Deus é o segundo Adão, Jesus Cristo: “O primeiro homem tirado da terra é terrestre.

O segundo homem vem do céu” (1 Cor 15, 47) e “...Adão, que é figura daquele que devia vir...” (Rm 5, 14b)

Há, para Paulo, “dois Adões”, dois modos de existir: o “corpo psíquico”, do Adão pecador, incapaz de doar vida, e o “corpo espiritual”, próprio de Jesus Cristo, fonte de vida para todos: “o último Adão tornou-se espírito que dá a vida” (1 Cor 15, 45b)

Jesus é a verdadeira imagem de Deus, e o cristão é chamado a assemelhar-se a essa imagem, morrrendo ao homem velho para poder viver a vida do homem novo.

Mas, hoje nós somos a imagem do primeiro ou do segundo Adão?

Paulo nos esclarece: “Assim, como trouxemos a imagem do homem terrestre, traremos também a imagem do homem celeste” (1 Cor 15, 49).

Estamos em transformação, do homem que trouxemos para o homem que traremos.


JESUS É O SENHOR

Com este título eclode a confissão de fé na condição divina de Jesus.

O nome de Deus no Antigo Testamento é traduzido para o grego pelo termo “Kyrios” (Senhor).

As primeiras comunidades já confessam que Jesus é o Senhor.

Sua intenção é clara: diante da multiplicidade de senhores, os cristãos confessam um único Senhor: Jesus, o Cristo. Ficam invalidados todos os outros senhores, com sua falsa intenção de divinidade.

O senhorio de Jesus é escatológico, mas já incide na vida da comunidade.
A vida cristã é vivida em relação ao Senhor Jesus: “no Senhor”, fórmula utilizada inúmeras vezes por Paulo em suas cartas, significando que a vinculação ao Senhor é para ser vivida no cotidiano, na aceitação desse senhorio.

Por isso o hino cristológico de Fl 2, 6-11 exprime a fé na origem divina de Jesus, no seu esvaziamento, assumindo todas as consequências da morte de cruz, na sua exaltação. O hino afirma ao final: “que toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai”


JESUS É O FILHO DO HOMEM

É uma expressão que aparece 80 vezes no Novo Testamento, sempre utilizada por Jesus para autodesignar-se (exceto em At 7, 56)

É uma tradução para o português de “Bar nasha” ou “ben adam” que quer dizer simplesmete que alguém é humano, é homem.

Aparece frequentemente no Antigo Testamento com este significado.
Dois autores bíblicos empregam o termo num sentido diferente do comum: Ezequiel (cap 34) e Daniel (cap 7).

Deus chama o próprio Ezequiel de “filho do homem” quando lhe dá uma missão.
Escrevendo por ocasião do exílio na Babilônia, Ezequiel inverte a noção do Messias guerreiro que liberta, para a ideia de Príncipe da Paz, de Bom Pastor.

O fato de ser simplesmente homem não o impede de ser testemunha e sentinela de Deus, anunciando a verdadeira aliança e a verdadeira face de Deus, bom pastor por excelência.

Em Daniel aparece a figura apocalíptica do Filho do Homem, descrevendo um sonho.

O texto deixa na sombra a identidade do Filho do homem, mas lhe atribui qualidades que iluminam seu ser e sua função.

O personagem não surge da terra, do abismo primitivo como os outros seres, mas vem por sobre as nuvens, tem origem no céu.

Ele surge durante o julgamento final, e recebe de Deus a soberania, torna-se o substituto de Deus no governo do mundo.

O Filho do Homem é um personagem escatológico, e esta figura funde-se com outro personagem: o Messias sempre aguardado.

O Filho do Homem pertence a dois mundos: o mundo de Deus, do qual ele é o Revelador, e ao mundo dos homens, onde traduz em linguagem humana a eterna intenção de Deus.

Jesus emprega a expressão com três significados diferentes:

1- Ele é o Filho do Homem que atua em sua existência terrena em meio aos outros homens, vivendo as limitações dessa existência: “Veio o filho do homem que come e bebe, e dizem: eis aí um glutão e beberrão” (Mt 11,19)

2- Ele é o Filho do Homem que realiza a missão do Servo: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos... Ser morto e ressuscitar” (Mc 8, 31); “O Filho do Homem está sendo entregue às mãos dos pecadores” (Mt 26, 45)

3- Ele é o Filho do Homem que virá no final dos tempos, com glória e poder, para julgar, o que o coloca na perspectiva própria de Daniel: “E quando vires o Filho do Homem subir aonde estava antes?” (Jo 6, 62); “Quando o Filho do Homem vier em sua glória...então se assentará no trono de sua glória” (Mt 25, 31)

O Filho do Homem evoca uma origem celeste enquanto essa tiver uma correspondente terrestre, e toma forma concreta na encarnação, na humilhação, na existência do Servo.

É a encarnação que estabelece que a escatologia gloriosa não despreza a história concreta dos homens.

O Jesus da história é o Filho do Homem que conduz a humanidade, com toda limitação e sofrimento, à glória apocalíptica de que fala Daniel.

A vocação do Filho do Homem não é diferente daquela do Servo.

Jesus é o Filho do Homem porque sendo de condição divina possui uma existência histórica.

O título Filho do Homem é apenas formal enquanto não assumir carne e sangue. Ele se manifestará na Parusia, quando a dualidade entre o projeto de Deus e o concreto da história for superada, quando a identificação de Jesus com a humanidade for manifesta, no julgamento.

O julgamento é, na verdade, a revelação da identidade entre Jesus e os homens.

Título de majestade, o Filho do Homem define a missão de Jesus, enquanto realiza na história uma intenção divina: a unidade dos homens entre si e com o Filho de Deus


JESUS É O FILHO

O título “Filho” é diferente do título “Filho de Deus”. Este último tem origem na teologia política do antigo Oriente.

O rei era visto como tendo origem divina.

Em Israel essa “geração” era tida como “eleição”.

A simples palavra “Filho”, nos Evangelhos, nós só encontramos na boca de Jesus.

O Evangelho de João – na qual a palavra aparece 18 vezes – é que melhor aprofunda o significado da filiação única de Jesus: ela implica uma íntima e perfeita comunhão de conhecimento, de vontade e de ser com o Pai.

O Filho identifica toda a sua atividade com a atividade do Pai: “O Filho, por si mesmo, nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer; tudo o que este faz o Filho o faz igualmente” (Jo 5, 19).

Ele tem a vida em si: “Como o Pai tem a vida em si também concedeu ao Filho ter a vida em si” (Jo 5, 26). Possui comunhão de conhecimento: “como o Pai me conhece eu conheço o Pai” (Jo 10, 15)

Ele está no Pai como o Pai está nele: “Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós.” (Jo 17, 21)

A vontade do Filho constitui uma unidade com a do Pai, como nos é apresentado no Jardim das Oliveiras: “não a minha vontade, mas a tua seja feita.” (Lc 22, 42)

De tal modo é íntima e total a comunhão entre Pai e Filho que Jesus pode dizer: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30)

21 de setembro de 2010

BÍBLIA - DEUTERONÔMIO (aula 10)

O livro do Deuteronômio sempre foi muito importante para o judaísmo. Nele está o Shemá (6, 4-9), que os judeus recitam diariamente e é o centro do livro.

É um dos livros mais citados no NT ao lado de Isaías e Salmos, além de influenciar a eclesiologia de Paulo e a perspectiva de Deus como um Pai amoroso.

Para os alexandrinos, o livro é uma atualização da Lei (17,18) contida no Código da Aliança (Ex 20-23).

É uma atualização da antiga aliança, procurando adaptá-la a novos tempos e situações.

Neste livro temos as últimas palavras de Moisés e o seu destino. É o grande conjunto do Pentateuco. Estamos na terra de Moab, no além Jordão, no último ano de marcha pelo deserto (1,1-3) antes da entrada na Palestina central.

O Deuteronômio foi colocado entre os acontecimentos importantes: de um lado, a libertação da escravidão no Egito, a aliança com Javé e a marcha pelo deserto (Ex, Num, Lv) – de outro, a posse de Canaã, a Terra Prometida (Js, Jz).

É preciso pois, que o povo aprenda a viver a liberdade.

O Deuteronômio é, portanto, um aprendizado, uma pedagogia da liberdade e da justiça, a fim de construir uma sociedade em aliança fiel com Deus que liberta e dá a vida para todos (4,40; 6, 24-25; 8, 1-5).

É um apelo de conversão ao povo que vai atravessar o Jordão e tomar posse da terra. Isso depende da fidelidade do povo a Javé.

O seu aspecto particular é a legislação fundada no decálogo (5, 1-21), confiada a Moisés para ser exposta ao povo.


ESTILO E GÊNERO LITERÁRIO:

O estilo utilizado no livro do Deuteronômio é marcado e diferente de qualquer outro livro do AT. Nele encontramos uma oratória fluente e solene, buscando atingir, comover, convencer e influenciar os ouvintes pelo sentimento.

Trata-se de uma obra cheia de vida, dentro de um gênero monótono (legislação). Encontramos três elementos: leis, narrativa e exortações.

Leis:
Apresentadas de modo caloroso, apelando para o bom-senso e sentimento, apoiando-se em argumentos que questionam diretamente a consciência (15,12-18).

Narrativas:
Falam de um passado, dirigindo-se ao presente, visando formar a consciência histórica que constrói o futuro (5, 1-3)

Exortações:
Se dirigem à liberdade e pedem uma decisão (28; 30)

Seu gênero literário é bastante complexo e resulta de uma confluência das instituições do tempo do reino dividido.

Temos sacerdotes (leis e instruções), profetas (oratória fluente e emotiva) e sábios (conselheiros perspicazes).


VISÃO PANORÂMICA:

A estrutura geral apresenta quatro grandes partes:

I. Introdução histórica e teológica (1-11)

II. Código Deuteronômico (12-16)

III. Ritos de conclusão da aliança (27-30)

IV. Apêndices (31-34)



I. Introdução Histórica e Teológica (1-11)
1. Primeiro discurso de Moisés (1,1-4,40)
2. Segundo discurso de Moisés (4,44-11,32)

II. Código Deuteronômico (12-26)
1. Relações com Deus: leis cultuais (12,1-16,17)

2. Relações com as mediações: leis sobre as autoridades (16, 18-18,22)

3. Tribunal superior no santuário para causas difíceis (17,8-13)

4. Situação das autoridades (17,14-18,22)

5. Relações sociais: leis civis (19, 1-21,19)
- Respeito pelo homem e pela vida (19,1-21,9)
- Direito familiar e social (21, 10-25,19)
- Respeito pela vida: animais (22, 22-23)
- Respeito pela vida: nas relações sociais (22,13-23,1)
- Critérios para pertencer à comunidade (23, 2-15)
- Respeito para com os pobres e necessitados (23, 16-24,22)
- Respeito pela dignidade, boa fama e lealdade para com o próximo (25, 1-16)
- Destruição de Amalec (25, 17-19)

6. Prescrições rituais e conclusão (26, 1-19)
- Os primeiros frutos (26, 1-11)
- O dízimo trienal (26, 12-15)
- Conclusão (26, 16-19)

III. Preparação e conclusão da Aliança (27-30)
1. Preparação e ritos da aliança (27)
- Pedras da lei com a legislação (27, 1-10) (27, 1-10)
- 12 maldições sancionando a infidelidade (27, 11-26)

2. Bênçãos (28, 1-14) e maldições (28, 15-68)

3. Terceiro discurso de Moisés (29-30)

IV. Apêndices (31-34)
1. De Moisés a Josué (31):
- exortação ao povo e eleição de Josué (31,1-8. 14-15.23); - livro da Lei para ser lido a cada sete anos (31, 9-13);
- introdução ao cântico de Moisés (31, 16-22) e convite ao povo (31, 28-30);
- o livro é guardado ao lado da Arca (31, 24-27).

2. O cântico de Moisés (32, 1-47):
- profecia e celebração (32, 1-43);
- exortação: Lei como fonte de vida (32, 44-47).

3. Último ato de Moisés (32, 48-33,29):
- Moisés sobe ao monte Nebo e contempla a terra (32, 48-52);
- Bênção de Moisés (33).

4. Morte de Moisés (34):
- a morte (34, 1-9);
- elogio (34, 10-12).

Javé é o Pai que ama o seu povo, adotando-o como filho. A esse amor, o povo responde com o temor e o amor.

O amor de Javé por seu povo é testemunhado pelos seus dons:
- ele dá a liberdade (êxodo)
- e a vida (terra).

Esse dom é fruto, também, da conquista do povo.

Na conquista da liberdade, se tem a relação política.

Na conquista de terra, se tem a relação econômica.

A JUSTIÇA DE DEUS NASCE DO AMOR E SE REALIZA NO DOM DA LIBERDADE E DA VIDA PARA TODOS.

A justiça do homem nasce do temor-amor que conquista a liberdade e a vida, transformando-a em partilha e fraternidade.



O Deuteronômio fornece uma metodologia pastoral para a atualização da fé dentro dos problemas e conflitos de um novo contexto histórico, com seus aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais.

Atualizando sua leitura, podemos avaliar, de forma crítica, os problemas e desafios que um determinado contexto histórico-social levanta, tomar desse parâmetro ou modelo do passado a tradição válida ou a atitude básica permanente, aplicar a tradição válida ou a atitude básica permanente para responder aos problemas do presente e, essa resposta, deve conservar a natureza da tradição válida ou a atitude básica permanente.

Assim, o deuteronômio, lança o alicerce da ética. Apresenta a Lei que não é imposta de fora, mas que provoca o emergir da consciência e pede uma decisão.

Temer e amar javé, é uma tarefa que engloba toda vida

20 de setembro de 2010

BÍBLIA - NÚMEROS (aula 09)


Este livro se chama Números porque começa com um grande recenseamento do povo hebreu no deserto.

Após a libertação da escravidão no Egito (livro do êxodo) e a formação recebida no Sinai (livro do Levítico), o povo recebe as últimas instruções e se põe em marcha pelo deserto (Números) até a planície de Moab, onde Moisés profere o seu último discurso (Deuteronômio), visando à conquista e à organização do povo na Terra Prometida.

Para os hebreus, a saída do Egito foi uma lenta e penosa caminhada em busca da terra.

Neste livro, a caminhada se transforma numa majestosa marcha organizada de todo um povo. No centro de toda caminhada está a arca da Aliança, o que destaca não um relato histórico, mas uma transmissão de mensagens.

À luz da caminhada do povo para a terra prometida, estamos nós em busca do Reino de Deus. A organização mostra que, dentro do povo de Deus, as funções devem ser repartidas, mas com um único objetivo: realizar o projeto de Deus.

A arca de Deus no centro indica que, nessa caminhada, Deus está sempre presente no meio de seu povo.

Porém, nos depararemos com fortes conflitos (capítulo 16) e que seus chefes estão sujeitos a fraquezas e desânimos, por mais importantes que sejam na comunidade.

O livro se abre ao papel do profeta, que na caminhada do povo de Deus para a Terra Prometida, deve haver sempre um lugar para o profeta (22 a 24).

O nome “Números” veio da tradução grega do AT. O título do livro em hebraico é mais interessante: “No deserto” (bamidbar).

Neste livro, o deserto é o personagem principal e decisiva.

A divisão do livro
1,1-10,10: os últimos 19 dias no Sinai;
10,11-21,35: em marcha pelo deserto;
22-36: em Moab, diante da Terra Prometida.

A primeira parte prolonga e completa a apresentação das instituições descritas no Êxodo e no Levítico.

A segunda parte é a saída de Israel do Sinai, atravessando o deserto, chegando aos limites da terra de Moab.

A terceira parte começa com um novo recenseamento (26) e contém as disposições de Moisés para a partilha dos territórios conquistados (32).

O livro Números é bastante complexo e suas tradições possuem materiais que vieram à luz num período de mais de oitocentos anos, entre 1230 e 400 a.C.

Nele encontramos textos javistas (preocupações da corte Davi e Salomão, significação universal do povo), eloístas (preocupação com as tribos, Moisés é o profeta e comunica o espírito profético) e sacerdotais (refletindo a preocupação com os sacerdotes em torno do culto). Trata-se de um relato, com elementos legislativos.

Compreendendo que o conflito de sistemas é o cerne da Bíblia e que ele foi instaurado pelo próprio Deus, cabe a todas as pessoas que se dedicam à evangelização, vencer o conformismo que aprisiona o povo no velho sistema para instaurar o conflito e instigar à luta pela construção de um novo sistema.

O Deserto
É o lugar da educação, onde o povo deve aprender um novo modo de viver. A passagem do Egito para a Terra Prometida foi longa... tempo para transformações...

Deserto é lugar de dificuldades e desgraças (11,1-3)...
Deserto é lugar de fome (11,4-9)...
Deserto é lugar de racionamento (11,4.13.31-34)...
Deserto é lugar de pragas e doenças (17, 6-15)...
Deserto é lugar de sede (20, 2-13)...
Deserto é lugar de cansaço (21, 4-9).

O quadro de conflitos mostra que as coisas não são pacíficas no processo de conquistar a vida. Damos valor ao que conquistamos. O deserto é um tempo de rever as próprias atitudes, projetar vida, projetar sonhos... dar passos.

Moisés demonstra grande paciência e é descrito como “o homem mais humilde entre todos os homens da terra” (12,3), mas tal qualidade não o pouparam do desânimo, da dúvida e até do espírito de vingança.

O resultado da caminhada no deserto é sombrio, nenhum dos que saíram do Egito entraram na Terra, nem o povo, nem Moisés e Aarão.

Quem vai entrar na Terra é a nova geração (14,31; 26, 63-65), que poderá aprender com erros e acertos da geração anterior.

É graças a Moisés que o povo liberto recebe a sua primeira organização.

O Decálogo é incompreensível sem o movimento de libertação.

Todos vêem as coisas ou os acontecimentos, mas em geral, as pessoas ficam na casca ou na aparência dos acontecimentos. O profeta penetra a casca e vai ao seu núcleo profundo, que é o segredo que o acontecimento possui.

SEGREDO
- COISA = ACONTECIMENTO
- VONTADE DE DEUS
(sentido do acontecimento)

Assim, Números nos confirma a presença de Javé como Deus libertador, Deus da vida.

Um Deus que está no meio do povo, presente na “tenda do encontro”, não se encontra em edifícios ou estruturas, mas está no meio do povo. Deus é popular: não quer estar acima e nem longe do povo.

Estamos diante de um Deus que acompanha e guia o seu povo, um Deus vigilante, compassivo, exigente.

O livro todo é pontilhado pela expressão “Javé disse a Moisés” ou “Javé disse a Moisés e Aarão” (1, 1.54; 2, 1.34).

Israel é o povo que ouve a voz de Javé mediada pelo seu profeta.

Assim é a experiência vivida no deserto, um lugar da educação ideológica de Israel: deixar os mitos do antigo sistema e começar a cultivar a memória, formando a consciência histórica capaz de produzir e solidificar um novo sistema.

O Salmo 78 nos convida a rezarmos esse momento, essa lembrança e esse esquecimento.

É no deserto que se encontra a solidariedade.

É no deserto que a solidariedade social despertará a nova comunidade, na luta e na conquista da nova terra.

Um povo que não conheça a solidariedade social é um povo fraco e vulnerável, totalmente impotente diante da liberdade e da vida.
BÍBLIA - LEVÍTICO (aula 08)



Encontramo-nos no momento em que se dá a formação de um povo santo.

Levítico provém do nome Levi, a tribo de Israel que foi escolhida para exercer a função sacerdotal no meio do seu povo.

Dentre os livros da Bíblia, o Levítico é o mais enfadonho para ser lido e o mais difícil para ser entendido. Muitos nunca o leram, outros pararam na metade e, os que conseguiram chegar até o fim, deram um suspiro de alívio.

Fala do culto, do sacerdócio e das práticas religiosas de Israel e do judaísmo. Sua riqueza se dá no conhecimento do período pós-exílico e na ascensão progressiva da classe sacerdotal. É o livro que define o estatuto do poder e do governo sacerdotal no pós-exílio.

Encontramos nesse livro um emaranhado de leis, cerimônias, rituais, festas e costumes, que nos desanimam e nos fazem perguntar: Para que ler isso?

Não podemos esquecer, porém, que tal livro é parte da revelação de Deus e, que por isso, tem sua mensagem válida.

É no Levítico que podemos descobrir a preocupação minuciosa de mostrar que o Deus santo está presente em todos os setores da nossa vida, curando, julgando, salvando e chamando-nos continuamente a sermos santos (19,2).

Também nesse livro se encontra a regra de ouro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (19,18).

O livro do Levítico é um livro mais para ser consultado do que para uma leitura contínua, pelo caráter de leitura monótona e bastante árida.

O centro da ideologia presente em Levítico é a função de mediador que, enraizada na herança de Moisés e Aarão, pouco a pouco invadirá todos os campos da vida judaica, desde o religioso até o moral e social.

Como justificar o poder sacerdotal?
A justificativa está no poder mediação: o sacerdote é o mediador entre Deus e o povo. O povo só pode chegar até Deus por meio do sacerdote. E Deus só pode chegar até o povo por meio do sacerdote.

POVO -> Profano
SACERDOTE -> Intermediário
DEUS -> Sagrado


Estrutura do Livro:
Fruto de longa evolução, o livro do Levítico deixa ver, contudo, uma estruturação bastante marcada.

1.Os sacrifícios (1-7)
2.O sacerdócio mediador (8-10)
3.Pureza e impureza (11-16)
4.O Código de Santidade (17-26)
5.Apêndice: o resgate (27)

O livro do Êxodo, termina com a construção da Tenda do Encontro (40, 16-33) e as primeiras palavras do Levítico exprimem a legitimação dessa tenda.

Deus transmite, ao longo do livro, “suas leis e costumes”, explicando o bom uso dessa tenda para que seja verdadeiramente, o “lugar do encontro”. O título hebraico consiste na primeira palavra do texto: wayyiqrá = ele chamou.

SACRIFÍCIOS
Em todas as religiões, o sacrifício é uma tentativa de entrar em relação mais íntima com a divindade. Sacrifício enquanto “dom” oferecido à divindade; sacrifício operando uma “comunhão” com a divindade e sacrifício visando a uma “expiação” dos pecados.

SACERDÓCIO
As funções sacerdotais não parecem ser exercidas só por especialistas. Os patriarcas das famílias também as exerciam. Contudo, em torno dos lugares de culto, estabeleceram-se famílias sacerdotais que garantiam o serviço do santuário e conservavam as tradições e os costumes.

PURO E IMPURO
A noção de impureza é bem próxima a de “tabu”. Na impureza, o homem não entra em relação com Deus no culto. O ato culpável acontece quando, estando em impureza, a pessoa age como se estivesse pura (15,31).

SANTIDADE
Uma das noções capitais do Levítico. A santidade aponta todo o mistério insondável do Deus transcendente, inapreensível, inefável. E sendo transcendente, Deus permite ao homem aproximar-se dele (23) Este Deus incompreensível dá-se a conhecer e comunica sua vontade (19).